I N D I Z Í V E L

Mike Davis
Ilustração Surrealista| Mike Davis

A linguagem é meu esforço humano.
Por destino tenho que ir buscar
e por destino volto com as mãos vazias.
Mas volto com o indizível.
O indizível só me poderá ser dado
através do fracasso de minha linguagem.
Só quando falha a construção é que obtenho
o que ela não conseguiu.

Clarice Lispector | A paixão segundo G.H.

 

Indizível. O que não se expressa. O intraduzível. Aquilo que não se enlaçou com nenhuma representação, nenhum signo que possa traduzi-lo em palavras. Desprovido de uma família de significantes, tem-se sua existência apenas no campo dos Afetos, e é assim que o sujeito que sofre, o sujeito cuja dor o põe no estado de desamparo, se angustia com o que não consegue expressar. Sem palavras, apenas sente. Apenas Sente.

Entre a Linguagem e o Homem, o domínio pertence à primeira. Nossa espécie é dominada pela Linguagem. Estremecemo-nos diante das palavras, tendo elas o poder de nos levar ao êxtase, como também o de nos levar à ruína. Assim, somos seres simbólicos, esculpidos pelas representações de cada signo, cada palavra. Na ausência dela [palavra], sobram-nos afetos órfãos, soltos num campo vazio sem nenhuma representatividade.

Nesse campo do [apenas] Sentir, encontra-se o mistério dos Sintomas. Freud ([1893-1895] 1987) já observara a possibilidade de um afeto desprendido de representações (imagens mentais; idéias) recalcadas deslocar-se para partes do corpo, como em seus famosos casos clínicos sobre a histeria de conversão. Assim, um afeto sem palavras, um afeto que promove a angústia do Indizível, pode, em suas vicissitudes, converter-se em sintoma físico.

Governados pelas palavras, súditos da rainha Linguagem, nos deparamos com o sentimento de desamparo diante de sua ausência. Ora, um povo sem governo é um povo destinado à ruína. Dessa forma, na ausência da Linguagem, instrumento esse que nos separa da barbárie humana, do primitivo de nossa espécie, somos súditos sem representatividade, órfãos daquilo que nos permite expressar o que está no campo do Sentir. Mas como todo governo tem suas fragilidades, a Linguagem não consegue reinar em todo o território dos Afetos. Há sempre uma área onde seu poder não chega.

Dessa forma, por mais que coloquemos em palavras tudo o que sentimos, haverá sempre uma Coisa, um Fragmento afetivo, uma Angústia incapaz de ser traduzida. Um doloroso vazio do Indizível.


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Casos clínicos. In: ________ Estudos sobre a histeria (1893-1895). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

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