A Escolha [Narcísica] Amorosa

 

Christian Schloe
Ilustração surrealista | Christian Schloe

“É certo, afinal de contas, que neste mundo nada nos torna necessários a não ser o amor.”

– Johann Wolfgang von Goethe

O Amor e a Escolha Amorosa

O que é o amor se não o ato de dar o que possuímos? Ou melhor, investir no outro tudo [ou o pouco] que temos? Na teoria da libido, energia sexual que nos conduz à vida, o sujeito que investe libido é um sujeito que investe amor. É um sujeito predestinado a gozar os mais profundos afetos ao mesmo tempo que se submete ao sofrimento, pois amar é caminhar em trilhas escuras sem saber o destino que nos aguarda, e, nada mais penoso que deixar de ser amado.

De acordo com Freud ([1914] 2009), há um movimento distinto na forma de amar conforme os sexos, sendo muito comum observar uma tendência dos homens supervalorizar o objeto de desejo, no caso, a mulher, transferindo nela todo o seu narcisismo:

Ele exibe a acentuada supervalorização sexual que se origina, sem dúvida, do narcisismo original da criança, correspondendo assim a uma transferência desse narcisismo para o objeto sexual. Essa supervalorização sexual é a origem do estado peculiar de uma pessoa apaixonada, um estado que sugere uma compulsão neurótica, cuja origem pode, portanto, ser encontrada num empobrecimento do ego em relação à libido em favor do objeto amoroso” (FREUD, [1914] 2009).

 

Esse tipo de escolha amorosa seria do tipo anaclítico, ou seja, a escolha do objeto de desejo teria como modelo inconsciente a mãe. Ele a coloca em um pedestal e a cultua. Seu ego fica empobrecido, pois quase toda carga libidinal é investida na mulher amada, configurando-se num movimento de quase submissão. Este sujeito é capaz de tudo fazer em favor de sua amada, inclusive aquilo que sempre dissera nunca fazer. Por esse motivo há uma espécie de empobrecimento egóico em todos os apaixonados, “[…] o indivíduo parece desistir de sua própria personalidade em favor de uma catexia objetal […]” (FREUD, [1914] 2009).

Quanto às mulheres narcísicas, principalmente no que se refere às mais belas, há um caráter distinto em suas escolhas amorosas. O que se observa é que no auge da puberdade o narcisismo original, ou seja, aquele do período infantil quando a criança se satisfaz em si mesma (autoerotismo) sem tomar outra pessoa como objeto de desejo, se intensifica na mulher. Ela é capaz de satisfazer-se consigo mesma, despertando nela um autocontentamento:

“Rigorosamente falando, tais mulheres amam apenas a si mesmas, com uma intensidade comparável à do amor do homem por elas. Sua necessidade não se acha na direção de amar, mas de serem amadas; e o homem que preencher essa condição cairá em suas boas graças” (FREUD, [1914] 2009).

 

Porém, Freud reconhece que tais observações sobre a vida erótica feminina no tocante ao narcisismo, não podem ser consideradas universais, ou seja, nem todas as mulheres fazem suas escolhas amorosas por este viés, podendo adotarem características similares ao da supervalorização ocorrida com os homens, porém, ao invés da mãe, tomam inconscientemente o pai como modelo. Buscam, como fazem os homens, afetos como proteção, amparo, ternura, que uma vez na tenra infância obtiveram por meio da figura paternal.

Mas e quanto às escolhas homossexuais? Neste caso, há um grande caráter narcísico intrínseco na escolha do objeto de desejo. Na ótica freudiana, observa-se que a escolha da pessoa amada carrega inconscientemente grande influência do erotismo no próprio corpo, remetendo ao período do autoerotismo quando o bebê-criança satisfazia-se apenas com o próprio corpo. Cabe aqui lembrar que neste período o bebê ainda não reconhece a existência de outra pessoa, sendo impossível para ele distinguir o eu do outro, por esse motivo não tem como tomar o outro como objeto de desejo, pois não há outro para ele.

Portanto, diferentemente da escolha anaclítica (tomando os pais como modelos de escolha amorosa), a análise freudiana revela que o homossexual possui como tipo de escolha objetal o narcísico, tomando seu próprio corpo como modelo de escolha objetal. Em outras palavras, busca si mesmo em outros corpos. A partir do narcisismo procura em outras pessoas do mesmo sexo sua própria imagem. Assim observara Freud que

“[…] sua escolha ulterior dos objetos amorosos adotaram como modelo não sua mãe mas seus próprios eus. Procuram inequivocamente a si mesmas como um objeto amoroso, e exibem um tipo de escolha objetal que deve ser denominado ‘narcisista’” (FREUD, [1914] 2009).

 

A Necessidade de Amarmos

Voltemos agora à teoria da libido. Em um gesto defensivo, a libido pode deixar de ser investida em objetos externos e recolher-se para o ego, pois assim estaria o sujeito imune aos males psíquicos. De fato somos seduzidos pelo pensamento de que o amor próprio é o segredo para uma vida amorosa saudável, o que não deixa de o ser. Porém é essencial que haja um transbordamento de libido do Ego para que se possa tomar outra pessoa como objeto de desejo. Em outras palavras, é fundamental para a saúde psíquica amar a si próprio, desde que também haja amor para ser investido no outro. Para Freud

“Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração, formos incapazes de amar” (FREUD, [1914] 2009).

 

Por fim, diante desta ótica do amor (investimento libidinal), sabe-se que o narcisismo é fundamental para o fortalecimento da autoestima, mas principalmente quando o Ego é investido de amor pelo outro. Um Ego que embarca para si toda a qualidade libidinal que investida pela pessoa amada, garantirá, sem dúvida alguma, um sujeito com forte autoestima. O ato de ser amado é um ato que salva o Ego dos malefícios da insegurança, pois, “nas relações amorosas, o fato de não ser amado reduz os sentimentos de autoestima, enquanto que o de ser amado os aumenta. Como já tivemos ocasião de assinalar, a finalidade e satisfação em uma escolha objetal narcisista consiste em ser amado(FREUD, [1914] 2009).


REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: Uma Introdução. In: ________ A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 2009.

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