Fotografia

Ronny Engelmann
Ilustração surrealista | Ronny Engelmann

“A fotografia nunca se revela por inteiro quando você se desmancha por alguém. Essas relações lembram uma foto polaroid: a imagem vai aparecendo aos poucos. Algumas coisas se distanciam do sentimento original, mas isso é a vida.”

– Mia Farrow

 

Toquei em sua fotografia antes mesmo de lhe conhecer, e nela projetei a melhor de todas as minhas coleções de fantasias. Essa coleção estava guardada há tempos em prateleiras de um armário desejante, e há quem prefira chamá-lo de corpo, ou de psiquê, como os amantes do Espírito.

Conforme conhecia seus traços marcantes, desenhados num rosto tão jovem quanto uma tela de tecido pronta para receber pinceladas de prazer, arvorava-me firmemente na delicadeza que morava em sua imagem. Olhando sua fotografia, escrevi um roteiro como de um filme parisiense, cujo fim já previa ser trágico. Mesmo assim arrisquei-me.

 

“Olhando sua fotografia, escrevi um roteiro como de um filme parisiense, cujo fim já previa ser trágico. Mesmo assim arrisquei-me.”

 

E foi dessa forma que deixei-me cair nas armadilhas do aparelho psíquico, que, como criança arteira que aperta a campainha e sai correndo, fez-me sair de mim para ver quem ousava despertar-me logo cedo. Muito cedo aliás. Mal havia descansado de outros amores, outras dores. Embora atordoado, atendi a campainha. Embora cansado, abri-me para você e assim lhe conheci.

O problema maior é que sempre que alguém bate à nossa porta, ao invés de darmos acolhida à pessoa que nos visita, damos abrigo às fantasias que construímos entorno do visitante. Acabamos sendo anfitriões do tipo narcísico, e em nosso egoísmo infantil de exigir todo o prazer só para nós, fantasiamos à nossa maneira. Acolhemos esse visitante-desconhecido-amado e desejamos que ele atue exatamente da forma como escrevemos o seu [nosso] roteiro.

 

“…sempre que alguém bate à nossa porta, ao invés de darmos acolhida à pessoa que nos visita, damos abrigo às fantasias que construímos entorno do visitante.”

 

Já não tocava na fotografia, agora tocava em sua pele. Não era qualquer pele, era a sua pele. Era um manto macio que encobria uma essência que eu mesmo havia criado. Acreditava como uma velha religiosa que acredita em sua reza, que você seria a imagem e semelhança de minhas fantasias. Mero engano. Conforme nos conhecíamos, mais nos desconhecíamos, e os traços que eu havia pintado em você destorciam-se. Cheguei a limpar as lentes projetivas dos meus óculos egóicos, mas foi em vão. Sim, literalmente em vão, mais precisamente no vão que havia entre nós, no vazio sem nenhum [apro]fundamento.

E novamente nos esbarramos em outro problema, ou catástrofe? Tanto faz, ambos só se completam para abrir ainda mais a nossa ferida narcísica. Pois bem, ocorre que o outro também é sujeito desejante, armário com prateleiras que sustentam suas próprias coleções fantasísticas. Ele também escreve roteiros. Ele também se arvora no que pinta sobre nós.

Logo, não era um vão, era um abismo então.

E desse amor Seja-Eterno-Enquanto-Dure, sobrou-nos as velhas fotografias que guardei numa outra prateleira no mesmo armário, diga-se de passagem, e há quem prefira chamá-lo de memória afetiva, ou de Sujeito, como os amantes do Espírito. 

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