Carta a um amigo.

Ettore Aldo Del Vigo
Ilustração surrealista | Ettore Aldo Del Vigo

 

“Espinho não serve para nada. É pura maldade das flores.”

– Antoine de Saint-Exupéry

 

Amado amigo,

No início, suas palavras chegaram a mim discorrendo sobre a Dor. Falar sobre a Dor é falar de enigmas que nem sempre são desvendados. A Dor então fora o elo que ligou seu espírito ao meu, e, inicialmente, percebi em suas palavras um encanto que normalmente só se encontra escondido, encoberto sob o peso da educação. Educação esta que se diz servir para enobrecer os homens, ao mesmo tempo tornando-os cavalos guiados pelas rédeas da civilização.

E que encanto. Não havia falado tanto sobre a Dor psíquica como falei com você, sendo ela uma condição da nossa espécie, companheira desde o primeiro ar que respiramos quando nascemos, fruto de uma condição de desamparo. Por esse viés, nosso diálogo rendeu prazeres traduzidos em palavras. Rendeu-nos uma viva alegria, mesmo que o assunto estivesse tocando na borda do desamparo, sentindo-nos em nossa pequenez amparados por nossas palavras. Essa foi minha percepção sobre os nossos primeiros diálogos e, creio eu, que seu doce espírito também assim percebera.

Convidei-lhe para entrar. E você entrou. Nossa intimidade deu-se por meio de fortes golpes de delicadeza. Nossas primeiras conversas remetiam-nos a um tipo de setting analítico, pois falávamos numa espécie de associações livres, deixando com que a espontaneidade fosse a senhora de nossas orações [linguísticas e, de fé, por que não?].

Por debaixo de sua imagem delicada, de suas palavras sensíveis, porém, trajadas de vergonha e pudor, pois assim os homens em sua incapacidade de tolerarem a força de seus instintos, criaram um véu consagrado para esconderem-se de si mesmos, encontrei sua humanidade. Por debaixo do seu discurso amoroso e delicado, encontrei as paixões do mundo que só os homens de carne e osso portam em sua intimidade carnal.

 

“Seu doloroso discurso transpassa o que é mortal e transcende ao que não podemos ver.”

 

Seu doloroso discurso transpassa o que é mortal e transcende ao que não podemos ver. Alguns poderiam dizer que isso que escrevo pertence a algo do espiritual, porém, falo sobre o inconsciente, que também não podemos ver. Ora, o que mais desvela o inconsciente se não os traços deixados pela linguagem? Por esse motivo seu discurso transcende ao que não se pode ver. Aliás, falando sobre seu forte discurso, não seria ele o significado do seu nome? O que carrega “uma grande oratória”? O que toma atitudes “guerreiras”?

Cada conversa nossa, profunda em sua essência, possui intervalos. Os enlaces de nossas linguagens não se dão com frequência, mas quando ocorrem são como grandes eventos, suficientes para percebermos que, embora nem sempre falamos sobre a Dor, ela ainda está lá, escondida por detrás dos assuntos mais sensíveis ou distraídos que sejam.

 

“Falamos sobre a Dor sem falarmos da Dor.”

 

Falamos sobre a Dor sem falarmos da Dor. E pela via da palavra, seus segredos mais íntimos passaram a obter fôlego em meio a suas resignações. Outra coisa, a palavra resignação tem lhe definido bem, aceitando você carregar nas costas o peso das normas da civilização. E por esse motivo, gradativamente, passamos a perceber juntos a origem de toda sua Dor, sendo ela como aquilo que um estudioso helenista, apóstolo cristão convertido no caminho de Damasco, chamara uma vez de “um espinho na carne”.

Sua Dor é dor de espinho, resignado a aceitar a carregar em seu espírito florido uma incômoda farpa num corpo de carne. Dor de desejo, Dor de não poder desejar. De seus ramos coloridos, frutíferos quando falam das coisas do seu D-us, também brota o conflito, conflito esse que se dá entre um espírito desejante e um sujeito também desejante. Eu, que, por meio dos nossos diálogos, não consigo fazer acepção entre a pureza e o pecado, pois em você, assim como em toda a nossa espécie, acredito que todos os prazeres humanos são uníssonos, embora os rotulemos de diferentes nomes, e são eles que nos dão o toque de humanidade. Portanto, sua Dor é Dor humana. Nossas dores são Dores de meros homens mortais, fragilizados sob a força da Cultura que nos permite obter apenas pequenos prazeres, tendo que nos abster de muitos outros, colocando-nos assim a viver numa condição neurótica.

E foi dessa forma que, falando sobre dores, conheci a leveza de sua essência e o peso do seu corpo. E embora portamos cabeças que desencontram-se no caminho das opiniões, esse escrito registra a convergência entre as dores e amores existentes em nós, condensados naquilo que chamamos de amizade. E como já dizia Freud, o que é uma amizade se não fruto de um amor inibido.

Assim, dedico-lhe essas palavras. Dedico-lhe todo o amor que se entrelaça em nossos diálogos. Dedico-lhe o Amor pela Vida, pois esse ainda possui maior peso sobre ela, a Dor.

À você, Damasceno. Como aquele do caminho de Damasco.

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