Ela, a Senhora Dor

Alessia Iannetti
Ilustração surrealista | Alessia Iannetti

A felicidade é salutar para o corpo, mas só a dor robustece o espírito.

– Marcel Proust

Diante da porta, com medo de entrar

Na porta, diante da possibilidade de falar de sua Dor, ela hesita. Estremece. Nunca haviam lhe dado uma Escuta que acolhesse seu discurso – calma, isso tudo vai passar – diziam a ela. Mas aquela Dor, aquela farpa cravada na fenda de um Ego frágil, nunca passava. O Tempo foi determinante em sua piora, e o que começara como Dor, tornou-se um sintoma. Agora, tinha medo de relacionar-se. Tinha medo de novas farpas, novos cravos, novas fendas.

Mas ela estava lá, diante da porta do consultório, prestes a entrar e conhecer aquele que viria a ser seu analista, ou melhor, sua ilha particular onde depositaria por meio da transferência suas coleções de afetos infantis, pequenas chaves de acesso às raízes de suas dores.

Sobre a Dor, dizia Freud:

“Tudo o que se sabe a respeito da dor enquadra-se nesse conceito. O sistema nervoso tem a mais decidida propensão a fugir da dor. Vemos nisso uma manifestação de sua tendência primária de evitar o aumento da tensão quantitativa […]” (FREUD, [1885] 1996).

Nesse sentido, a Dor por ser um acúmulo de energia (excitação), possui caráter quantitativo, necessitando ser descarregada, pois “a descarga representa a função primordial do sistema nervoso” (FREUD, [1895] 1996). Porém, não só quantitativa, mas também qualitativa devido ao fato do sujeito senti-la como algo desprazeroso.

 

Mas cria coragem, permitindo-se entrar

Com a coragem de uma criança medrosa, rompe com sua resistência decidindo entrar. Senta-se e aguarda. Aguarda a recepção daquele que lhe servirá de Escuta, uma Escuta cirúrgica que trata do discurso do sujeito que sofre como se fosse um corpo em sua forma integral, porém, fazendo pequenas costuras onde parece haver fissuras, o não entendido, o não-sabe-que-sabe, trazendo à luz da compreensão aquilo que se esconde nos vãos da linguagem. Ela treme, suas mãos suam. Tenta distrair-se lendo uma revista sobre a crise econômica – fugindo de sua própria crise – sem obter muito sucesso.

Mas a Dor não é companheira da nossa espécie? Não abriga os desencantos que nos esbarramos pela Vida dando forma à nossa natureza humana? Ora, não há homem na terra que não tenha passado pela experiência da Dor, e não há homem que, mesmo em sua vaidade, portando consigo toda a prepotência de querer assenhorar-se de todas as riquezas naturais, não tenha experimentado o sofrimento. Nascemos na condição de desamparo, acessando a Dor desde o momento em que fomos desenlaçados do útero materno.

Nossa condição humana é diferente da maioria dos animais, pois não nascemos preparados para a Vida. Nascemos incapazes de manter-nos vivos sem o auxílio de um outro que nos ampare, que nos cuide. Nossa condição de desamparo provém da incapacidade do bebê de satisfazer suas demandas internas – as exigências de suas necessidade vitais (GARCIA-ROZA, 1998). Ou seja, como já abordado a pouco, o fato de não conseguir livrar-se da tensão oriunda do excesso de excitação põe o sujeito em uma condição de desamparo. Dessa forma, para que o bebê possa sobreviver, é de extrema necessidade que ele obtenha auxílio de seus cuidadores, ou como dizia Freud,

“[…] quando a atenção de uma pessoa experiente é atraída para o estado em que se encontra a criança, mediante a condução da descarga pela via de alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função de comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais” (FREUD, 1996).

 

Percebe que a Escuta está se aproximando

Frustrada por tentar distrair-se sem sucesso com a revista, ouve alguns passos vindo do corredor, percebendo que ela, a Escuta personificada num corpo de analista, está se aproximando. Pensa no que dirá. Aliás, já formulara suas primeiras frases imaginando as perguntas que as antecederiam – direi que só vim para conhecer como funciona a terapia, sem muitas pretensões, caso ele me pergunte – pensou ela.

Ainda sobre o início das nossas dores, segundo Freud, o bebê ao não reconhecer a mãe no rosto de uma pessoa estranha, sente a dor da perda do objeto (mãe). Nessa situação, “lá onde existe dor, é o objeto ausente, perdido, que está presente e o objeto presente, atual, que está ausente” (PONTALIS 1977). Dessa forma, nosso mundo ainda fragmentado, não simbolizado por sermos ainda bebês, o que nos gera prazer está na ordem do conhecido, familiar:

“O mundo afetivo do bebê é geograficamente muito restrito, pois este se circunscreve ao mundo que lhe é familiar. Só o que lhe é familiar e conhecido desperta a sua confiança e o faz sorrir com tranquilidade. O estranho o angustia” (ROCHA, 2011).

 

Enfim, entra no espaço-infinito-das-palavras

Por fim, o corpo da Escuta (analista) apresenta-se a ela, estendendo sua mão e cumprimentando-a. Envergonhada, mal dirige seus olhos aos olhos do outro, como se o ato de olhar e ser olhada diretamente pudesse desnudá-la de suas resistências e o outro saber, logo de cara, os segredos contidos na ordem do não-sabe-que-sabe. Mesmo assim, com muita delicadeza, responde o cumprimento, sendo em seguida conduzida à sala do analista, sala que num futuro breve será apelidada por ela como “espaço-infinito-das-palavras”.

Wojtek Siudmak
Ilustração surrealista | Wojtek Siudmak

 

Mas se nós, meros mortais, nascemos numa condição de desamparo, acessando a Dor desde o início da vida, tendo ela muita vezes ligação à compulsão à repetição, nos fazendo repetir comportamentos que nos levam ao mesmo fim doloroso, como um analista pode lidar com ela? O que essa Escuta num corpo de analista pode fazer diante de algo tão intenso, chegando a ultrapassar a fronteira psíquica, somatizando-se num corpo que adoece? Segundo J.-D. Nasio, o único gesto terapêutico que pode tornar a Dor do sujeito que sofre suportável é atribuindo-lhe um valor simbólico. Diz o autor, lançando mão de um fragmento de uma análise, onde

“Uma mãe devastada pela perda cruel de um primeiro bebê tão esperado e tão brutalmente desaparecido e um psicanalista que tenta dar sentido a uma dor que, em si mesma, não tem nenhum sentido. Em si, a dor não tem nenhum valor nem significado. Ela está ali, feita de carne ou de pedra, e no entanto, para acalmá-la, temos que tomá-la como a expressão de outra coisa, destacá-la do real, transformando-a em símbolo. Atribuir um valor simbólico a uma dor, que é em si puro real, emoção brutal, hostil e estranha, é enfim o único gesto terapêutico que a torna suportável” (NASIO, p.19, 2007).

E foi assim que, entrando no espaço-infinito-das-palavras, a moça que dizia procurar análise “só para conhecer”, pôde enfim descarregar gradativamente a desprazerosa energia acumulada que lhe gerava Dor. Em outras palavras, foi pela via da linguagem e pelo processo de elaboração que conseguiu simbolizar o peso bruto de sua Dor, dando-lhe novos sentidos que, mais adiante, converteriam aquele peso em algo sustentável.

 

________________________________ Ψ ________________________________

REFERÊNCIAS

FREUD, S. [1895]. Projeto para uma psicologia científica. Edição Stadard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

GARCIA-ROZA, J. A. Introdução à metapsicologia freudiana. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

NASIO, J.-D. A Dor de Amar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007

PONTALIS, J.-B. (1977). Entre o Sonho e a Dor. São Paulo: Ideias & Letras

ROCHA, Z. A Dor Física e Psíquica na Metapsicologia Freudiana. fortaleza: Revista Mal-estar e Subjetividade, Vol. XI – Nº 2 – p. 591 – 621, 2011.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s