Despedida

Vladimir Kush
Ilustração surrealista | Vladimir Kush

“Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente.”

– Martha Medeiros

 

Quando a Vida me inaugurou, seu sopro confessou-me que um dia conheceria a dor de sua ausência. Ele me falava sobre a morte, mas em minha inocência não lhe compreendia. Mais tarde, viria a aprender o significado daquele sopro. 

Aprendi em meio a dor que nascemos predestinados a nos despedir. As coisas simplesmente partem, e por isso o verbo partir ganha um enorme sentido, pois quando alguém parte, de fato parece partir algo dentro de nós. Todo o nosso dom de afeto é investido na representação daquele que [nos] partiu e, ao partir, leva consigo uma parte que nos parecia pertencer. Leva consigo todo o amor que havíamos despejado nele, roubando-nos a leveza de sua presença, deixando em troca o peso de sua ausência.

 

“As coisas não precisam morrer para sofrermos com sua falta”

 

O pior é sabermos que não basta a morte para sofrermos a dor da perda. Na vida, aprende-se que o luto é uma roupa que também se veste na ausência da morte. Ela não precisa nos dar o ar de sua graça para sentirmos a dor do que se parte. Durante a vida estamos sempre à espera do momento em que teremos que nos vestir de luto, pois as coisas não precisam morrer para sofrermos com sua falta.

Então, lá se foi quem um dia prometera não ir. Diante desse infortúnio, desse chão arrancado, o ego se estremece. Conhece o terremoto, com a diferença de que ele não se dá no lado de fora, mas de dentro. Um terremoto egoico. Toda perda, já dizia aquele velho barbudo Freud, exige do ego um grande esforço, tendo que apoiar-se no pouco que lhe restara para não adoecer, até que, gradativamente, se recupere desse susto similar a morte. Frágil, luta por algo que já não possui mais, restando-lhe apenas as lembranças daquilo que não volta. Luta pelo [in]visível, por aquilo que lhe parece vivo, mas que são apenas projeções de uma memória que chora pela ausência daquele que se foi.

 

“(o ego) Luta pelo [in]visível, por aquilo que lhe parece vivo, mas que são apenas projeções de uma memória que chora pela ausência daquele que se foi.”

 

Aquele segredo que o sopro da Vida contara-me, veio no momento certo, no instante em que a Vida me inaugurou. Pois penso que, se por rebeldia a Vida decidisse soprar esse segredo antes de nascermos, talvez, relutaríamos em nascer. Se soubéssemos que ao partir, muitos nos partiriam, como árvores cortadas onde antes davam frutos, faríamos de tudo para não nascermos. Mas não, a Vida é sábia, ela precisa de nós para existir assim como precisamos dela para darmos sentido ao verbo Ser. A Vida sem as coisas [anímicas] que há no mundo seria uma idosa sem bengala, precisando ela sustentar-se em nós para ganhar algum sentido, e é por esse motivo, por essa aflita necessidade, que nos revela o segredo da perda apenas depois que nascemos.

Definitivamente somos frágeis em nossas relações, pois amar é viver na iminência da perda, e ninguém nos preparou para a despedida, mesmo quando sabemos que um dia teremos que nos despedir. Começamos a amar com o medo do abandono, da mesma forma como quando começamos a viver com o medo da morte. 

 

“A despedida é matéria-prima da saudade que o ego sente antes mesmo do outro partir.”

 

As coisas não deveriam ir embora. Tão pouco se diluírem, principalmente aquelas que pareciam ser sólidas. Mas no campo do amor, o que é sólido? Não há solidez, a não ser a de um ego rígido que exige ser satisfeito a todo o custo pelo amor do outro. Quando investimos amor no outro, a relação toma a mesma direção incerta que uma gota toma ao escorrer pela vidraça da janela. Observando ela escorrer, acreditamos que descerá num caminho reto, quando subitamente escorre para outra direção, isso quando a gota não se divide em duas, [re]partindo-se como ocorre dentro de nós. Está aí! Amor é uma gota que escorre sem direção definida.

A despedida é matéria-prima da saudade que o ego sente antes mesmo do outro partir. Ninguém deseja despedir-se quando se ama. Aliás, como substâncias químicas que não se combinam, amor e despedida não fazem amizade, porém, nesse mundo incerto no que se refere ao ato de amar, há quem diga já ter se despedido por amor. E assim, involuntariamente temos desde a nossa meninice nos preparado para nos despedir, cientes de que, mesmo com nossa casca de proteção, haverá um ego que chora pelo vazio que lhe foi dado, aguardando que o Tempo amenize sua dor, e que o rio libidinal volte a correr para novas direções, novos mundos, novos amores, novos enlaces.

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