Solidão, dita mal-dita

 

“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

– Clarice Lispector

 

Crucificada por sua existência, mal falada, combatida pelo discurso do gozo, mal-dita e julgada como algoz. Conhecida por roubar para si aqueles que deveriam pertencer aos desejos da massa, ela, a indesejada Solidão, é uma condição não muito bem vista pela cultura contemporânea.

O homem é um ser desejante, almeja por feitos e afetos, anda segundo a vontade das pulsões que governam seu aparelho psíquico, que o obrigam a buscar um objeto para enlaçar-se e chamar de desejo. Desta forma, sabendo que o homem produz em si um manancial de desejos, a cultura contemporânea tem cravado sua ideologia de satisfação plena em suas massas, levando o homem a sacrificar-se por uma migalha de gozo, um prazer parcial, um bocado dessa [suposta] felicidade.

***

Esquenta seu chá. Olha para o relógio que marca 21h33. O gato mia. É possível ouvir o som das gotas caindo da torneira sobre a pia do banheiro. Com o chá na caneca e o gato no colo, estica-se na poltrona enquanto pega o livro sobre a mesinha ao lado. Era um livro que falava de amores possíveis em tempos de solidão – “amava mesmo sozinho, mesmo sozinho não deixei de amar, pois quando você é escolhido por alguém para ser amado, até mesmo em sua solidão é possível continuar namorando a imagem do outro e as lembranças entorno dela, mesmo em sua ausência física” – lia em voz alta o trecho da página 174, marcado por um pedaço de jornal.

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A observação clínica faz emergir algumas questões acerca do sentimento de solidão na atualidade, parecendo ser uma posição ocupada pelo sujeito que se encontra entre os discursos sociais que tentam devorá-lo, impondo sobre ele a ideia de que é preciso ser sociável para sentir-se feliz, pois a felicidade é ser tão realizado quanto os modelos dos comerciais da Coca-Cola. Nota-se então, que, em alguns casos, sentir-se só é uma resposta defensiva a fim de preservar sua singularidade, sem o risco de cair no abismo superficial da massa.

Ora, ao debruçar-se no estudo das raízes do mal-estar na civilização, Freud observa os conflitos existentes entre o sujeito e seu meio social, distinguindo-os em dois vieses: o sujeito que renuncia suas pulsões a fim de sentir-se integrado e, portanto, amparado pela sociedade, e aquilo que Freud denominou como “miséria psicológica da massa”.

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As paredes da sala, descascadas de tão cansadas eram, alegravam-se com as sombras dos carros que projetavam-se pela janela. À meia luz, ainda lia seu livro. O gato já estava em seu segundo sono, deitado em seu colo. Silêncio. Há um magnifico silêncio. Ele pausa sua leitura, abaixa o livro, olha pela janela e, com os olhos serrados, tenta enxergar um agrupamento de pessoas que andava pela calçada dando fortes gargalhadas.

São quatro? –  pensa ele, tentando contar – não, há outros dois vindo atrás.

Começa a dar gargalhadas. O gato acorda espantado, pulando em cima da muda de roupas no canto da sala. Sua risada era alta, não tinha como segurá-la após ver as duas pessoas que estavam atrás do grupo levando um tombo no chão – Como podem? Um tropeça e o outro cai tentando ajudar o amigo? Olha lá! Todos estão rindo da cara deles – diz ele em voz alta para sua solidão.

***

A constituição de um grupo se dá pela via da identificação, inerente ao homem em suas relações. É por meio do outro, ou seja, por meio de suas representações, que o ego ganha forma, tomando o outro como referência, introjetando dele algumas de suas qualidades. Dessa forma, “a ligação social se estabelece principalmente pela identificação dos membros entre si” (FREUD, 1921). Porém, no que se refere à “miséria psicológica da massa”, o sujeito identifica-se com um grupo abrindo mão de sua singularidade, suas pulsões e desejos, a fim de integrar-se ao desejo da massa. Nesse contexto, os desejos singulares de cada sujeito perdem força para conciliarem-se ao desejo coletivo.  

A cultura da massa sustenta um Superego feroz, constituído por leis e ideologias que regulamentam seus indivíduos. Uma cultura onde o Ideal do Eu é sustentado principalmente por um “outro midiático”, por aquele que veicula pelas redes de comunicação a imagem do que seriam os sucessos financeiro e social. O sujeito confia no grupo sem questioná-lo, abrindo mão de seus instintos a fim de integrar-se aos ideais civilizatórios.

 

“Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham”

– provérbio japonês frequentemente compartilhado nas redes sociais.

 

***

Com a barriga já descansada das risadas que lhe exigiram esforço, ele fecha a cortina da sala. O gato parece até roncar. Cercado de sua solidão, caminha até o quarto, lugar onde as estrelas já apareceram em suas fantasias e onde os melhores sonhos foram fabricados. Deita-se na cama e olha para o porta-retrato, permitindo-se acessar saudosas suas lembranças. Ali, sozinho, com o desejo de rever os amigos no dia seguinte, olha para o teto-mundo de seu quarto sorrindo um sorriso nostálgico – Pedro, Carlos… chamarei a Manuela também, aquela louca que me fez comer areia na praia com a rasteira que me dera – pensa ele, que fora um homem cercado de opiniões alheias e de todas as gentes.

Logo, adormece, pensando em levar no dia seguinte sua solidão para a mesa de bar junto aos amigos. Adormece sozinho. Sorrindo. Sozinho.

***

Segundo Freud, “[…] o supereu da cultura, exatamente como o do indivíduo, institui severas exigências ideais, cujo não cumprimento é punido mediante ‘angústia de consciência” (FREUD, 1930, p. 117). Dessa forma, percebe-se que a solidão (sem ser a de caráter patológica, como nos casos depressivos), acaba por ser em alguns casos uma forma do sujeito manifestar-se contra o discurso social. Na ótica psicanalítica, o sofrimento do sujeito solitário nesse contexto seria uma posição ocupada para lutar por sua singularidade sem deixar-se engolir pela “miséria psicológica da massa”, que ensina seus indivíduos que o verdadeiro gozo está em ser bem sucedido, rodeado de amigos, muito bem relacionado e popular.

Ora, o sujeito que não se vê ocupando esse ideal pode, muitas vezes, sentir-se castrado dos valores pregados pela cultura, excluído do discurso da massa, sofrendo por não ser o que a cultura espera que ele seja. Nesse contexto, a solidão, sem ser o estado de isolamento ou patológico, não é apenas uma forma do sujeito refugiar em si mesmo a fim de livrar-se da angústia produzida pela realidade que o cerca, tão pouco uma cultura da indiferença ou autossuficiência.

A esse sujeito o que se pode dizer é que não há um desinvestimento libidinal do âmbito social, mas sim, como já exposto anteriormente, uma posição na qual enfrenta o peso da normatividade regulada pelos ideais da massa, inclusive tanto no trabalho quanto na família, sendo ambas instituições enraizadas nos ideias sociais, estando o sujeito na linha tênue entre ceder sua singularidade às exigências da família e/ou do trabalho, ou preservá-la, mesmo que para isso lhe custe a angústia da castração, separação que, inevitavelmente, lhe fará gradativamente experimentar a solidão. Essa posição de solidão adotada pelo sujeito seria, como descrito no excelente artigo intitulado “Pra não dizer que Freud e Lacan não falaram da solidão”, uma recusa neurótica dos vínculos sociais.

Por assim dizer, o sujeito que adota a posição da solidão, acaba por ser a representação dos conflitos enraizados no discurso social, discurso esse que demanda os ideais da autossuficiência e do gozo integral, seja através do dê-tudo-de-si-enquanto-os-outros-dormem, seja pelas fotos de iphones tapando o rosto diante do espelho. Um sujeito que se recusa a submeter-se à “miséria psicológica da massa”, ao mesmo tempo em que lida com a angústia por não atender a demanda social.

A Solidão, a Solidão dita mal-dita, é a borda da cultura onde o sujeito sofre preservando sua singularidade, sofre com a presença da ausência de um outro, mas sem destituir-se dos laços sociais.

 

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REFERÊNCIAS

FREUD, S. (1921). Psicologia de grupo e análise do ego. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

MACCORD, C. Solidão – O monólogo de um estranho e solitário personagem. Curta-metragem disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OOp0QFAnTS4

TATIT, I; ROSA, M. Pra não dizer que Freud e Lacan não falaram da solidão. Revista Psicologia e Saúde, v. 5, n. 2, jul. /dez. 2013, p. 136-143

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