Memória: o Sagrado-Profano

Ilustração Surrealista | Vladimir Kush
Ilustração Surrealista | Vladimir Kush

“Quando o interesse diminui, com a memória ocorre o mesmo.”

– Johann Goethe

 

Vestida de lembranças simbólicas e representações mentais, a Memória é a Senhora que se assenta no trono da nossa história-fragmentada. Possui a voz do passado que faz eco no presente, e se assenhora de todas as nossas experiências vividas. É dona não do Tempo, mas do Tempo-Nosso. Sendo abrigo de afetos e imagens marcantes, detém o domínio de nossas emoções, nos fazendo vibrar com lembranças prazerosas ou cair em prantos com a surpresa de cenas dolorosas que desejávamos esquecer. Com a mesma docilidade de uma mãe que recolhe os brinquedos espalhados pelo filho, a Memória recolhe nossas histórias. E como brinquedos, algumas são preservadas integralmente, mas outras, temos apenas fragmentos, peças soltas, palavras distorcidas, cenas desconexas ou faltantes.

De cabeças erguidas, senhores da razão e [ilusórios] donos de si, os homens caminham crentes de que tudo podem, inclusive [se] controlarem. Mero engano. Aquilo que fora esquecido não é lembrado, mas nem por isso deixa de existir. Está ali, influenciando gostos, escolhas, repetições. Sim, os Senhores-Donos-De-Si não controlam, mas são controlados. Ora, quando o material esquecido possui forte influência sobre o comportamento, que posição ocupam os Senhores-Donos-De-Si se não a de Donos-De-Nada?

A função da majestosa Memória, já dizia Freud em uma de suas tentativas de conceituá-la, é a de registrar traços mnêmicos das ilimitadas percepções que o nosso aparelho psíquico é capaz. Assim, a memória é a função que se relaciona com esses traços, que podem ser conscientes, mas também fortemente influenciadores quando inconscientes. Dentre tantas funções, a Memória, segundo Freud, é capaz tanto de registrar quanto de transformar experiências vividas em traços mnêmicos; não trabalha diretamente com a consciência, porém, mais especificamente com as instâncias pré-consciente e inconsciente; possui como característica a capacidade de manter diversos registros e sob signos diversos; se reorganiza frequentemente; deixa-se guiar por representações mentais (imagens).

 

[…] por um lado a Memória carrega a Glória de resguardar nossas histórias, por outro, sofre com as manifestações defensivas de um inibido aparelho psíquico.

 

Mas se por um lado a Memória carrega a Glória de resguardar nossas histórias, por outro, sofre com as manifestações defensivas de um inibido aparelho psíquico. Nos alegramos com a visita de representações dóceis, e gozamos do prazer ao vermos uma fotografia que nos remete às lembranças deslumbrantes de um passado que desejamos reviver. Porém, sucumbimos aos efeitos daquilo que nos traz terrível desprazer, fazendo-nos tocar nos ombros da Dor. Choramos ao ouvir uma música que, numa cadeia associativa, nos traz cenas que não desejamos lembrar, cenas de profundo sofrimento, cenas do que se foi e não volta mais. Traz imagens que exigem de nós um pouco de lágrimas, e, como se fôssemos crianças, nos põe para dormir num gesto de defesa.
A fim de evitar uma possível angústia ao Ego, faz-se necessário que nem toda experiência seja lembrada, sendo muitas delas forçosamente esquecidas. Aqui, o esquecimento ganha significativa importância, pois é o que nos mantém saudáveis em certo ponto. 

O esquecimento carrega consigo algumas formas de operar, onde as mais relevantes na ótica psicanalítica, são: o recalque original, ocorrido em plena aurora da constituição do sujeito, gerando uma lacuna impossível de ser acessada ou dizível (pois não há representações linguísticas; não há palavras); os recalques que ocorrem durante nossa vida, sendo possíveis durante a análise (terapia) de serem recordados. 

Ainda no âmbito do esquecimento, Freud nos traz a noção do que denominara de “acting out”. Nesse caso, o sujeito Senhor-Dono-De-Si é incapaz de recordar daquilo que esqueceu ou recalcou, porém, sob a influência da compulsão à repetição, põe-se a repetir sem saber que repete. Suas escolhas são repetitivas, assim como seus fracassos parecem possuir similaridades uns com os outros. Comporta-se de forma repetitiva sem dar-se conta de que repete. Dessa forma, a Memória atuaria a nível inconsciente. O sujeito lembra, porém, não recordando, mas repetindo em ações, e quanto maior a resistência psíquica em recordar, maior é a tendência de haver uma atuação (repetição).

A Memória, mesmo sofrendo com as manifestações das defesas psíquicas, mantêm-se soberana, e se a voz-do-passado não se expressa por uma via, encontra outra para gritar, podendo ela ser inclusive sintomática. A Memória pode nos ser O Sagrado da nossa história, ao mesmo tempo que, nos ferindo com lancinantes reminiscências, torna-se O Profano por fazer sangrar um corpo-forte-frágil ao lembrar do que uma vez o machucou.

Portanto, a Memória é a instância psíquica que  nos faz Ser. Carrega consigo a gene do que somos. Guarda para si vestígios que compõem nossa identidade. Reaviva nosso espírito e anestesia o sofrimento com lembranças prazerosas. Pode nos doer em momentos pouco felizes, mas ela é a riqueza que portamos na medida que envelhecemos, sobrando-nos o eco de tempos dourados que não podem ser revividos, mas complementados com novas histórias biográficas. A Memória nos é o Sagrado-Profano.

3 comentários Adicione o seu

  1. Juliana Albertini Herdy Malafaia disse:

    Querido Abner, (pausa!! fico escolhendo as palavras..rsrs) é tanta coisa que desejo dizer, sobretudo o quanto amo seus textos, sua escrita, sua linguagem expressada que me toca e parece sondar a minha alma. Você me inspira, desperta em mim o desejo de ser aquela que tenho guardado só pra mim…me encontro em suas palavras!!! um dia vou lhe conhecer…certa de que isso se realizará! Deixo o meu abraço, com afetos sinceros e torço para que esta mensagem chegue até você. Juliana Albertini

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    1. Abner Esteves disse:

      Juliana, minha querida, não escolha as palavras, deixe-as seguir seu curso sem nenhuma barreira, fica melhor assim,rs. É uma honra receber sua mensagem, não apenas pelas palavras, mas pelo investimento afetivo que há nela.

      Agradeço pelo tempo dedicado em comentar suas impressões aqui, pois isso é, ao menos para mim, uma preciosidade.
      Se a vida cumprir com a generosidade que só ela sabe ter, um dia nos conheceremos sim, por que não? E sim, sua mensagem chegou, e não só chegou como fui tocado por ela.

      Sinta-se abraçada por minhas sinceras palavras. Desejo para você a beleza do mundo. Fique bem.

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  2. JULIANA ALBERTINI HERDY MALAFAIA disse:

    , Ohh que surpresa maravilhosa!! Emocionada!! Querido Abner, que alegria ver sua resposta. Acolho em mim suas palavras e sinto-me abraçada. Tantas coisas que tenho vontade de dizer…já me sinto tão próxima de você, embora tenha apenas o watsap e o email como forma de comunicação nesse mundo tão grande que é a Rede Social…tenho aqui a melhor forma para te encontrar! 🙂 (por enquanto né?! rs) mas já o acompanho pelo Twitter faz tempo. É lá que aprendo todos os dias, dou risadas e choro, concordo balançando a cabeça e me emociono!! escrevo suas frases na agenda, no caderno que tenho sobre a mesa no meu trabalho… rsrs percebe que és para mim especial! Bom, falaria horas aqui, mas deixarei para uma próxima. Agradeço seu carinho e lhe desejo dias renovados! com afeto Juliana Albertini.

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