O Infantil, O Casco-Adulto e a música “Raconte-moi une histoire”.

Conte-me Uma História
(tradução)

Eu ouvi sobre esse sapo
É um sapo muito pequeno
Mas também é muito especial
Você só pode encontrá-lo na selva
Muito longe daqui
Mas se você encontrá-lo e se você tocá-lo
O seu mundo pode mudar para sempre

Se você tocar sua pele
Você pode sentir seu corpo mudando
E a sua visão também
Azul se torna vermelho e vermelho se torna azul
E sua mãe de repente se torna seu pai
E tudo parece um bolinho gigante

E você fica rindo, rindo e rindo
Nada é sempre exatamente o mesmo realmente
E depois que você terminar de rir
É hora de se transformar em um sapo você mesmo
É muito engraçado ser um sapo
Você pode mergulhar na água e atravessar os rios
E os oceanos
E você pode pular o tempo todo e em toda parte
Você quer brincar comigo?

Podemos ser um grupo inteiro de amigos
Um grupo inteiro de sapos
Saltando pelas ruas
Saltando pelo planeta
Subindo os edifícios
Nadando nos lagos e nas banheiras
Seríamos centenas, milhares, milhões!
O maior grupo de amigos que o mundo já viu
Pulando e rindo para sempre
Seria ótimo, né?

Veja todas as cores no céu

•     •    •

 

Um casco-adulto. Um sujeito grande, gigante. Um cabide de terno e gravata ambulante. Ele já é adulto, e tem responsabilidades agora. Numa sessão de análise, começa a falar sobre seus planos para o futuro e a tragédia que é ter que aguentar as críticas dos seus irmãos. Não tem filhos, mas sente-se obrigado a ter – É a lei da vida, não é?! Temos que gerar herdeiros – relata o gigante com a mão direita coçando a testa. Logo em seguida, o silêncio dá o ar de sua graça, fazendo-o ficar quieto e, reflexivo, escutar o que acabara de dizer.

De repente, o gigante chora. Chora de soluçar – Nunca dão atenção para o que eu quero, tem que ser do jeito deles. Não quero isso pra mim – desaba a criança.

Quando um analisando evoca afetos infantis durante uma sessão de análise, lembro da música “Raconte-moi une histoire” (Conte-me uma história), da banda francesa M83. Talvez, a diferença entre o infantil e o adulto, é que na história da criança o sapo lava o pé, e na do adulto, engolimos o sapo.

 

“…a linguagem nos deu o poder de dar 
sentido às coisas do mundo.”

 

Como homens simbólicos que somos, revestidos de linguagem, somos interpretativos em todos os âmbitos da vida. Interpretamos o mundo desde o momento que conhecemos as letras e as transformamos em palavras. Olhamos para uma árvore e interpretamos se a primavera está se aproximando; apontamos para o céu e nos arriscamos a prever a chuva; abraçamos os nossos pais, e, olhando em seus olhos, sentimos se estão tristes ou felizes. Somos assim porque a linguagem nos deu o poder de dar sentido às coisas do mundo, e se uma vez em nossa história evolutiva fomos revestidos pela linguagem, agora nós é que revestimos o mundo de significado.


Ao nascer, o bebê se depara com um mundo de linguagem. Falam dele antes mesmo do seu nascimento. Ou seja, antes de falar de si mesmo, ele já é falado: dizem o que ele sente, o que vai fazer, o que deve fazer e o que deve pensar do mundo (MORGENSTERN et al, p.112, 2013).


Por esse motivo, como na música “Raconte-moi une histoire”, em que a criança conta uma história de forma espontânea, costurando cenas fantasísticas, o analista pede ao analisando que fale tudo o que lhe vem ao espírito. Espontaneamente, esse sujeito se põe a falar sobre tudo, sem planejar ou escolher o que pretende falar. Essa técnica conhecida como Associação Livre é imprescindível, pois por sermos seres simbólicos constituídos pela linguagem, o inconsciente só passa a existir na presença da palavra. É pela via da linguagem que ele se manifesta. É falando sobre os relacionamentos frustrados, da viagem com a família, ou dos “sapos” engolidos que coaxam dores, que o sujeito revela o incompreensível dos seus sintomas, aquilo que se encontra na ordem do inconsciente, e que, frequentemente, pertence à sua biografia primitiva: o infantil.

 

“…por sermos seres simbólicos
constituídos pela linguagem,

o inconsciente só passa a existir
na presença da palavra.”

 

Ao ser inserido no campo da linguagem, o ser humano ganha, ainda criança, a capacidade de simbolizar, e, revestindo o mundo de sentidos, também a de fantasiar. Na ótica psicanalítica a fantasia é um “roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente” (LAPLANCHE, p. 169, 2016).

Desta forma, no cerne dos nossos conflitos habita um infantil. E mesmo adultos, carregamos afetos pueris, afetos oriundos de desejos não alcançados. Sobras de derrotas; de amores vividos; de amparos nem sempre obtidos. Carregamos restos de fantasias infantis que constituem o nosso modo de enxergar o mundo e de nos relacionar com o outro.

Na música “Raconte-moi une histoire” a criança fala com muito entusiasmo sobre um “sapo muito pequeno, mas [que] também é muito especial”. Um sapo que poderíamos interpretar como sendo da ordem infantil, e, embora seja muito infantil, é muito especial. Um infantil que só pode ser encontrado na selva. Ora, no sentido figurado, selva significa “uma grande quantidade de coisas emaranhadas”, ou simplesmente uma “quantidade de coisas”, segundo o dicionário Aurélio de Português. Uma selva que poderia, nessa singela análise, aludir ao inconsciente, já que em sua obscuridade também existe um emaranhado de “coisas”, representações pulsionais, como: ideias, imagens, pensamentos, desejos; todos já “esquecidos”, mas que influenciam no comportamento do sujeito enquanto tentam retornar ao consciente. Portanto, teríamos um infantil-especial que só pode ser encontrado “muito longe daqui“, no inconsciente.

Somos formados por casco-adultos, e no cerne desses cascos existe um emaranhado de fantasias [e desejos] infantis advindos das nossas primeiras relações com o outro. Uma das tarefas da psicanálise, dizia Freud, é o de tornar consciente o inconsciente. Era assim, que, no tratamento da histeria, gradativamente os sintomas cessavam à medida que traços de lembranças (representações) inconscientes ligavam-se às representações conscientes. Ou como diz a música, “[…] se você encontrá-lo e se você tocá-lo, o seu mundo pode mudar para sempre“.

A linguagem, como já anunciado anteriormente, é o caminho que nos leva ao inconsciente, e isso só é possível porque, além dos lapsos, das trocas de palavras, dos esquecimentos durante um discurso, a linguagem também pode ser regida pelos mesmos mecanismos primários que regem o conteúdo inconsciente, ou seja, mecanismos como o de deslocamento e condensação que se manifestam na fala do analisando. Ora, ao falar sobre uma coisa, o analisando pode estar falando de outra, sem dar-se conta disso. As representações são substituídas por outras, ou então formadas por uma mistura de várias representações numa só. Dessa forma, à medida que seu discurso é costurado através da escuta e interpretações do analista, a fantasia (muitas vezes infantil) torna-se consciente, então o incompreensível se transforma ganhando novos sentidos:

 

Se você tocar sua pele
Você pode sentir seu corpo mudando
E a sua visão também
Azul se torna vermelho e vermelho se torna azul
E sua mãe de repente se torna seu pai

 

Por fim, são nos movimentos adulto-infantil; passado-presente; retorno-a-si-mesmo; que o sujeito traça novas rotas, compreendendo o teor simbólico por detrás de seus sintomas. Conforme suas resistências psíquicas diminuem, gradativamente fica mais aberto para tocar onde não imaginava que um dia fosse tocar, transitando por camadas de tempos que se mesclam, pois “é hora de se transformar em um sapo você mesmo”, permitir-se tocar no que é da ordem infantil, o que lhe permite “mergulhar na água e atravessar os rios, e os oceanos, e você pode pular o tempo todo e em toda parte“. 

Aos meus ouvidos, a música “Raconte-moi une histoire” soa como uma análise cantada, um retorno do casco-adulto à sua semente infantil, onde uma boa parte dos afetos é forasteira em terras gigantes. Terras de gente adulta, mas criança em seu modo frágil de se machucar. Choramos como adultos, mas suscitando da nossa história o desamparo infantil. Cenas primitivas de um sujeito constituído de antigas-novas histórias. Sendo assim, embora estejamos cercados por tecnologias de ponta e de uma ciência cada vez mais avançada, a “cura pela palavra”, assim nomeado por Anna O. o método analítico quando este ainda ganhava forma, continua sendo o melhor caminho que nos aproxima da cura. Por isso,

 

Conte-me uma história.

Conte-me a sua história.

 

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REFERÊNCIAS

LAPLANCHE, J; PONTALIS, J. Vocabulário da Psicanálise. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2016.

MORGENSTERN, A; et al. Especificidade da clínica psicanalítica com crianças: uma diversidade de olhares. In_____ Psicanálise com Crianças. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.

 

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